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A História da música "Atrás da Porta"

Andei lendo o livro Noites Tropicais, do Nelson Motta e adorei.
Adorei tanto que antes de acabar de ler, já comprei a Biografia de Tim Maia escrita por Motta e engatei na leitura imediatamente em seguida.

   Em Noites Tropicais, Nelson compartilha muitas histórias da música e cena cultural brasileira, abrangendo dos anos 50 aos 90, em meio à sua trajetória profissional.
Nelson Motta além de ser jornalista especializado em música, já promoveu eventos como o Hollywood rock de 75 dedicado aos artistas nacionais, já fez direção artística de shows de artistas como Tim Maia e  Gal Costa, revelou talentos como Tim Maia e Marisa Monte, Encabeçou uma série de empreendimentos, como boates, espetáculos teatrais, Compôs em parceria com Rita Lee, Lulu Santos... (enfim, o cara tornou-se uma verdadeira enciclopédia da música popular brasileira) ...e além disso trabalhou como produtor musical, inclusive de Elis Regina.

      E é de Elis Regina a história com a qual mais me emocionei; mais precisamente a história de como foi composta a música "Atrás da Porta", parceria de Chico Buarque com Francis Hime, e a maravilhosa interpretação de Elis.
Vou montar a história aqui citando trechos do livro de Nelson , um vídeo de chico contando a primeira parte da composição e, completando a história; Elis em uma emocionante performance ao vivo.



Nelson nos conta;

"No Verão de 1972, Elis se separou mesmo de Ronaldo, num divórcio tão previsível quanto Tempestuoso...Roberto Menescal voltou a produzir seus discos, agora com a direção musical e o piano de César Camargo Mariano e uma banda totalmente diferente, talvez melhor...Um grande disco, mais equilibrado e sem aventuras, com um repertório de alto nível e uma Elis mais discreta e precisa. No disco inteiro ela se apresenta mais técnica e contida, mas em uma música explode de emoção como nunca e se derrama, chora e soluça as palavras de "Atrás da porta", uma de suas maiores performances em disco...

Quando Elis conheceu a música, levada por Menescal, a melodia de Francis Hime
tinha só a primeira parte da letra de Chico Buarque. Elis e César ficaram apaixonados pela
música e a gravação foi marcada para dentro de três dias. Nesse meio tempo, Menescal e
Francis tentariam dar uma pressão em Chico para terminar a letra. À noite, separada de
Ronaldo, sozinha na casa branca da Niemeyer, Elis resolveu fazer uma sessão de cinema,
convidando alguns amigos, entre eles César, para ver Morangos silvestres, de Bergman,
um clássico-cabeça da época. Mal o filme começou, César recebeu um bilhete de Elis, foi
ao banheiro ler e se espantou: era um “torpedo” amoroso. Atônito, César leu e releu,
acreditou e sumiu: completamente fascinado por Elis, era tudo o que secretamente
desejava. E temia. Então sumiu. Não foi encontrado nos dois dias seguintes em lugar
nenhum, os amigos se preocuparam. Mas no dia e hora da gravação, duas da tarde, César
estava no estúdio, Menescal se sentiu aliviado e Elis sorriu sedutora. César dispensou os
músicos, pediu para todo mundo sair, para colocarem o piano no meio do estúdio,
baixarem as luzes e deixarem só ele e Elis, para a gravação do piano e da voz-guia de
“Atrás da porta”.

Extravasando seus sentimentos, misturando as dores da separação com as
esperanças de um novo amor, Elis cantou, mesmo sem a segunda parte da letra, com
extraordinária emoção, com a voz tremendo e intensa musicalidade. Na técnica, quando
ela terminou, estavam todos mudos. Elis chorava abraçada por César. Juntos, César e
Menescal foram levar a fita para Chico, que ouviu, chorou, e terminou a letra ali mesmo, no
ato.
“Dei pra maldizer o nosso lar,
pra sujar teu nome, te humilhar
e me vingar a qualquer preço
te adorando pelo avesso
pra mostrar que ainda sou tua..."


Assim, Elis Regina cantou a versão definitiva de uma das mais poderosas e
dilacerantes letras de amor e ódio da música brasileira, produziu uma gravação antológica
e emocionou o Brasil com sua arte. E ganhou um novo namorado, com quem esperava
crescer na música e na vida."
 (MOTTA, páginas 243-244)

Em um trecho de um dos maravilhosos dvds lançados sobre Chico Buarque
( Romance, o sétimo volume), Chico fala sobre a composição desta letra:





E por último, uma bela interpretação de Elis para um programa de televisão;




Atrás da Porta
(Chico Buarque/Francis Hime)


Quando olhaste bem nos olhos meus
E o teu olhar era de adeus
Juro que não acreditei, eu te estranhei
Me debrucei sobre teu corpo e duvidei
E me arrastei e te arranhei
E me agarrei nos teus cabelos
Nos teu peito, teu pijama
Nos teus pés ao pé da cama
Sem carinho, sem coberta
No tapete atrás da porta
Reclamei baixinho


Dei pra maldizer o nosso lar
Pra sujar teu nome, te humilhar
E me vingar a qualquer preço
Te adorando pelo avesso
Pra mostrar que ainda sou tua

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